segunda-feira, julho 31, 2006

Cavaleiro da Paz contra o Dragão do Parkison

Eu conheço um cavaleiro. Sim, isso mesmo, um cavaleiro com as definições
medievais que surgem em sua mente quando você lê a palavra. Além de
cavaleiro, ele também é um cavalheiro, pois além de ser um guerreiro, essa
pessoa é um gentleman: educado, sereno e com um eterno sorriso, mesmo em
meio a tantas adversidades.

Sim, eu sei. Todos nós enfrentamos os nossos combates diários, mas muito
poucos possuem tamanho desafio pela frente; poucos carregam cruz tão pesada
quanto a que ele leva no corpo. Esse cavaleiro luta á tempos contra o Dragão
do Parkison e não perde a pose de batalha, nem descansa a espada, mesmo
quando o Dragãose esconde na caverna e ensaia uma falsa trégua.

Montado no cavalo da sua vontade, ele está em guarda e representa todas as
pessoas que também lutam contra esse Dragão. Sua bandeira têm os brasões do
amor e da paz. Sua armadura é de um dourado que reflete a espiritualidade
que sempre foi uma certeza em seu coração, mesmo nos momentos mais difíceis.
Seu escudo tem o desenho de uma estrela para lhe mostrar que todos nós somos
seres estelares temporariamente encarnadas em corpos fisícos. Ele sabe que a
morte é só uma passagem para um outro plano, onde continuaremos brilhando
eternamente. Dever ser por isso que não o escuto reclamar da luta, pelo
contrário, ele sabe que no fundo o Dragão é um aliado para lhe mostrar sua
força, sua capacidade de superação e principalmente mostrar a todas as
pessoas que maldizer a escuridão não acende a luz que carregamos no peito e
por si só já basta para iluminar o nosso caminho.

Eu conheço um cavaleiro e embora a sua história não seja narrada e cantada
pelos trovadores ou ecoem pelos corredores dos castelos, sua luta solitária,
para os que o conhecem, é a nossa própria luta na terra para ser feliz e
continuar vivendo bem sempre, mesmo sob o perigo de uma nova emboscada.


27 de Julho de 2006

terça-feira, julho 25, 2006

Passaporte

PASSAPORTE

Jamais achei que meu passaporte valesse muita coisa. Viajante, sempre tive
que lutar para conquistar vistos, permissões e autorizações para ir aonde eu
sempre quis.

Confesso que sonhava com passaporte europeu ou americano, ou qualquer
passaporte que não exigisse burocracia, que pulasse fila, que evitasse a
cara feia e desconfiada de agentes e fiscais da imigração, que sempre olham
desconfiados para nordestinos vagamundos como eu, esses brasileirinhos que
insistem em conhecer o planeta e suas maravilhosas curvas e contos. Contudo,
mesmo não abrindo facilmente as portas dos portos e as janelas que escondem
novos horizontes, meu “verdinho” sempre me levou aos quatro cantos do
mundo; da Paraíba à Paris, de Londres ao Egito, da Índia ao Líbano...
Líbano...

Abro o jornal e vejo a imagem da mãe que chora sangue, segurando a filha.
Elas foram impedidas de entrar no navio, na caravana dos resgatados, no
avião de socorro, por não portarem passaporte estrangeiro.

Nesse instante, o meu coração se abre e sintonizo algo, além do espaço:



“Sou essa mulher, e de meus olhos escorrem lágrimas de sangue. Seguro minha
filha sob o véu negro que cobre o meu corpo, como se fosse uma tatuagem que
representa o próprio Islã. Não penso em Israel, nem muito menos no
Hizbollah; não penso no Líbano destruído ou no número de feridos; só quero
salvar minha filha, escapar com vida, sair dali.

Desesperada, tento embarcar com um grupo de brasileiros, mas não consigo,
não tenho dupla cidadania. Nem o português que arranho, afinal boa parte da
minha família vive em São Paulo, consegue me ajudar. Se ao menos tivesse
cidadania estrangeira nem precisaria ser americana ou européia, nem
precisaria ser brasileira, qualquer passaporte ajudaria. Qualquer documento
nos levaria além das bordas do lugar que fora o meu lar e que agora virara
prisão. Qualquer passaporte nos levaria para além das bordas, para lugares
que não são bombardeados, que não explodem inocentes, que não exigem a vida
de quinhentos em nome de dois. Qualquer passaporte me salvaria, qualquer
passaporte salvaria a minha filha, qualquer passaporte que não o meu.”



Volto a mim e não consigo esquecer a foto no jornal, não consigo esquecer os
seus rostos. Elas são pedacinhos de mim, pedacinhos que choram em algum
lugar, enquanto sob suas cabeças, caem as bombas de ignorância.

Jamais imaginei que o passaporte brasileiro valesse tanto. Jamais imaginei
que meu passaporte valesse vida.



São Paulo, 25 de Julho 2006.
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